VÍDEO COM O PRIMO JOCA, Sr. João Vicente Leite (Joca)

Entrevista com um laborioso filho de Pedreiras, descendente de migrante nordestino, residente em Timom – Maranhão.

 

  1. INTRODUÇÃO

Do final do século XIX a meados do século XX, a região de Pedreiras despontou como centro de atração do retirante nordestino. Fugindo das agruras da seca, ele partia em busca de refúgio no clima úmido pré-amazônico. Sendo esta, uma região rica em recursos naturais – espécie de Eldorado maranhense – passou a receber milhares de emigrantes que chegavam a pé, em lombo de animais, por ferrovia, em pau-de-arara, canoa ou em toscas e improvisadas embarcações.

Há alguns relatos sobre as caravanas de famílias provenientes, principalmente, do sul do Ceará: região de Crato, Juazeiro, Missão Velha, Barbalha, Brejo dos Santos e Milagres.

As Caravanas eram, geralmente, agrupamentos de pessoas aparentadas, homens e mulheres, adultos e jovens, formando um conjunto familiar bastante complexo. Conduziam animais de carga e cães de caça.

A viagem em caravana era uma aventura de até meses, enfrentando sol, chuva e poeira; acampando ao longo da estrada, para descanso, preparo da bóia ou pernoite.

Conta-se que havia um precioso cão que caçava e supria de carne os caravaneiros, enquanto a caravana seguia.

Por volta dos anos quarenta e cinqüenta, ainda se via ingressar pelo lamacento ou empoeirado acesso de Pedreiras, conforme a estação do ano, os barulhentos rebanhos de animais, alguns enchocalhados: gado bovino, cavalo, mula e jumento.

Tangerinos de pele grosseira, maltratada pelo agreste e pelos embates do ofício, com traje típico, chapéu de couro e alpercata de rabicho, soltavam brados instigantes e estalavam a taca, pressionando o inquieto, aturdido e violento rebanho misto, rumo ao mercado central daquela cidade em crescimento.

As estradas carroçáveis que ligavam Pedreiras à linha do trem, em Coroatá, e com o vale do rio Parnaíba, em Teresina, eram palco por onde desfilavam os caminhões de carga e, também, os paus-de-arara, repletos de famílias nordestinas com sua parafernália, marca registrada do fugitivo da seca.

Inúmeros trabalhadores braçais, afeiçoados á lida da roça e do engenho de cana, ultrapassavam o portal de Pedreiras, com freqüência, e ofereciam seus serviços na cidade e nos pequenos sítios de redondeza.

Conheci vários destes trabalhadores e visitei muitos dos sítios que os acolhiam. Compreendiam, geralmente, terras de antigas fazendas de escravo onde se cultivavam algodão, fumo e cana de açúcar, além de lavoura de subsistência. DentRe eles, cito os seguintes: São Manoel, Centrinho, Olho d´Água, Sítio Novo, Bom Jesus, Imbaubinha, Belém, Altamira, Três Irmãos, Trindade, Baú, Barreiros, Santa do Virgem, São Raimundo, Telha e Santa Cantide.

Meus ancestrais instalaram-se em muitos destes locais, criaram seus filhos e, aos poucos, integraram-se aos costumes de Pedreiras, a verdejante terra dos palmeirais, banhada pelo Mearim, sob a proteção do glorioso São Benedito.

Meus avós paternos, eu os conheci velhinhos, por volta de 1949. Eles moravam na localidade Três Irmãos, a caminho da Trindade. Na Trindade vivi até meus 13\14 anos de idade, quando meus pais voltaram a residir na sede municipal, por volta de 1951\52.

Estes são os nomes dos irmãos de meu pai: Antonia, Raimunda, Isabel, Joana, Pedro e Jozino. Eles, em geral, residiam por perto ou na cidade, a cerca de sete quilômetros de distância.

Quando partiram do Ceará, meu pai (José Furtado leite) e minha mãe (Maria da Conceição Leite) eram ainda solteiros. Se não estou equivocado, Frei Galvão os uniu em matrimônio, em Pedreiras, por volta de 1919\20. São seus filhos: Maria, Raimunda, Raimundo (Sinhô), Antonio, Cesário, Sinhara, Judite e Pedro Furtado Leite. Destes, partiram para a casa do Senhor: Raimunda, Raimundo, Antonio e Cesário.

Estando, hoje, com 73 anos de idade, e residindo, há mais de 30 anos, distante de minhas origens, fui inspirado a conhecer alguns lances da minha história familiar perdidos no tempo e fui rever minha terra e minha gente.

Procurei reencontrar meus parentes, especialmente, aqueles mais próximos da minha faixa etária e os mais ricos em idade, espécies de testemunhas vivas dos primórdios da nossa história.

Assim, em maio deste ano, fui rever meu primo Joca Vicente, em Timom (Ma), um forte e disposto cidadão maranhense, de 84 anos de idade e sabedoria e pele crestada pelo sol meio-nortista.

  1. A ENTREVISTA (Timom-Ma, maio de 2011).

PL: “Joca, quero gravar um pouco de tua história, que está intimamente relacionada com a minha, está pronto para falar? ”

Joca: Sim. Meu nome é João Vicente Leite, vulgo Joca. Sou casado com dona Maria do Carmo Siqueira Leite. Temos 8 filhos (6 homens e 2 mulheres): José, Jacira, Socorro, Francisco, Luiz, Alberto, Paulo e Antonio Siqueira Leite.

PL: Quando veio residir aqui em Timom ?

Joca: Vim morar aqui, em outubro de 1988. Votei a Pedreiras, em 1990, passei um ano lá e retornei. Estou aqui, portanto, a cerca de 20 anos. Meus filhos moram por aqui, comigo. Apenas, um vive em Presidente Dutra e outro pro lado da Anfrosa ? Os demais, estão por aqui ou, viajando freqüentemente a Pedreiras.

PL:Como se chamam os seus pais?

Joca: sou filho de Antonio Vicente leite e de Isabel Furtado Leite (vulgo Belinha). São irmãos de Dona Belinha: Dona Antonia de Torquato, dona Raimunda do velho João Furtado, Dona Joana do velho Belo Xavier, o velho Jozino, o velho Pedro Bello e o velho Zé Bello (José Furtado Leite, teu pai).

PL: E sobre o teu avô materno, também, o meu avô paterno?

Joca: O velho Antonio Bello, ele morava nos Três Irmãos. Eu o conheci ainda, quando eu tinha uns 8 anos de idade. Plantei e cortei arroz com ele; eu estava sempre por lá conversando. Ele gostava muito de mim, dizia que eu era esperto, né?  Mas, nós conversávamos e brincávamos muito. Lá, no Três Irmãos, ele faleceu. Era casado com Maria Dona. Quanto aos ancestrais dela, não sei dizer.

PL: Você disse que cortava arroz com ele, como era isso?

Joca: Ele usava chapéu de palha. Colhia arroz em molhos. Ria muito, de se admirar. Começava com o plantio, ele ia cavando e a gente plantando as carreirinhas de arroz, com a enxada. Depois, a gente ia apanhar o arroz, como já falei. Também, ele fazia fumo e chamava a gente pra ajudar arrumando as folhas pra enrolar e fazer fumo de corda, principalmente. Trabalhei muito com ele, lá, naquela época de 1939.

PL: Tio Jozino morava lá, junto?

Joca: Jozino morava perto, era casado com a Raimunda Ferreira.

PL: Pois é…e depois, de que você ainda se lembra ?

Joca: Por volta de 1942, eu já, um menino, com 12\13 anos, meu pai mudou-se para o São José, um lugarzinho do outro lado do rio Mearim. Lá, fomos trabalhar de roça durante os anos de 1942 a 1945, quando mudamos para o Centro do Marçal.

No Centro do Maçal, ficamos uns tempos. Lá, eu me casei, no dia 1º de novembro de 1946, com dona Maria do Carmo Siqueira Leite.

Em 1949, casados, fomos morar no São Manoel. Lá, meu pai me vendeu um pedaço de chão e eu fui fazer um bananal. Ficava perto do local, onde depois, Lecínio, Nazário e Duque Fernandes (filhos de tia Quiterinha) instalaram um engenho de moer cana.

Depois, meu pai vendeu o resto de suas terras para meus sogro, o velho Antonio Joaquim, que estava morando perto da gente, lá no São Manoel. Lá nasceu minha filha Socorro, no dia 09\03\1950. Pois, já haviam nascido José e Jacira.

Em 09\03\1951 nasceu Francisco. Em 08\03\1952 nasceu o Luiz.

O resto, não lembro bem. Creio que o Alberto nasceu em 20 de janeiro de 1954. Depois, em 1955, o Paulo, e em 1956, o Antonio, em 5 de abril, esse caçula que deu umacrise medonha.

Daí, a gente foi lutando de lá pra cá e daqui pra lá. Então fomos morar em Pedreiras, em 1968, de onde passei a carregar banana pra cá.

Então, tive uma crise de hepatite e fiquei todo amarelo. O Dr. então me disse que se eu não ficasse na cama eu iria morrer.

Fiquei 30 dias deitado, sem me mexer.

Quando fiquei bom, o Sinhô Bello (teu irmão) me procurou, veio dizer: “rapaz, eu não fui lá (visitar) porque não tive tempo.”

Eu disse: Está bem, já fiquei bom.

Então, quando foi em 1988, Sinhô Bello adoeceu. Fui lá e lhe disse: Sinhô, se você ficar deitado… Ele respondeu: rapaz, é que tenho isso e tenho aquilo pra fazer… Eu lhe falei que o negócio era salvar a vida. Quando adoeci, eu tinha 2 carradas de bananas pra levar a Teresina e um bocado de vacas pra tirar leite.

Mas, larguei de mão, tudo.

E estou contando a história. E ele, oh!… Cadê o homem?

A hepatite virou hidropisia e…

Ele poderia estar muito bem…

Na época, eu já estava morando aqui…

PL: Olhando pra você, assim, vejo que é muito parecido com ele.

Joca: Pois é… Dizem isso mesmo… Ele mesmo me dizia: cuidado, não faz o que é ruim não, senão, eu vou pagar.

PL: Agora, volta um pouquinho pra falar da vida dos nossos ancestrais vindo do Ceará.

Joca: Sim. Os meus pais saíram de Missão Velha, em 1915. Já eram casados, porem não tinham filhos, ainda. A minha irmã mais velha, a Naninha, nasceu no São Manoel, Pedreiras.

Do São Manoel ele foi para o Olho d’Água, daí foi para Pedreiras e voltou ao São Manoel.

Do São Manoel, mudou-se em 1927, para o Belém, um local situado depois do lago da velha Clemência. Foi lá que se casaram minha irmã com João Ferreira e o Zé Vicente, meu irmão, com a Bárbara Ferreira, em 1938.

No São Manoel, havia apenas um velho morando, quando meu pai chegou em companhia do sogro (o velho Antonio Bello).

Não era lugar habitável, nem mesmo um poço permanente de água potável havia. O morador ia buscar água no rio Mearim, caminhando pela trilha que passava pelas terras do engenho do Lino Feitosa. Não tinha coragem de cavar um poço.

Então, o velho Antonio Bello comprou as terras do São Manoel por duzentos contos de réis: um grande monte de notas verdes.

Na verdade, ele pagou ao morador para se retirar, liberando-lhe as terras do São Manoel. Ai, eles tomaram conta.

Era esta a história que meu pai contava. O nego velho botou o dinheiro no bolso e foi embora. Ficaram por lá desde este tempo.

A gente se criou por lá, ficamos morando, até ir para o Belém.

Do Belém fomos residir no Altamira, perto de onde morava o velho Quinco Cesário (teu tio), bem ali, onde era o Zeca Tavares.

De lá, fomos para o São José e etc…

  1. Agradecimento e Conclusão

Primo Joca Vicenete,

Sou muito grato a você pelo modo fraternal e resoluto como aceitou participar desta entrevista. Certamente, estamos contribuindo para a divulgação da memória, da história de nossa gente, de nossa terra, e do povo nordestino.

Receba, portanto, um forte e fraternal abraço do seu primo Pedro Furtado Leite (vulgo, Pedro Bello). Peço a Deus que nos dê saúde, paz e alegria, para vivermos e podermos reconhecer e aplaudir os feitos de nossos antepassados.  A coragem e determinação daqueles que, não se deixando abater pela seca, nem pelas dificuldades da estrada, partiram em busca do Eldorado maranhense, do verdejante cocal do vale do Mearim, como a caravana de Abraão, que saiu à procura da Terra Prometida do vale do Jordão.

Ainda não se completou um século desde aquele dia da partida de nossos familiares, de lá, do polígono das secas, em 1915.
Imagino que, no dia anterior, nossas avós haviam preparado uma substanciosa farofa, com carne de frango, bode ou ovo de galinha, para inicio de caminhada.
Conhecendo a fibra da gente nordestina, sou levado a crer que tudo foi preparado de véspera: alimento e água para alguns dias, inclusive para os animais; apetrechos simples de cozinha, roupas, redes, ferramentas, cães de guarda e de caça (_quem sabe?… pode aparece algum veado sutinga, paca, tatu ou cotia, pela estrada) e etc…
Também, não deve haver faltado uma oração para Nossa Senhora e um pedido de benção ao Pe. Cícero Romão Batista, de Juazeiro…

E, ao surgir da aurora, todos a posto… a jornada vai começar…

Pé na estrada, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!…

Vamos embora, compadre Antonio Joaquim!… Chama as mulheres!…
Não esquece o fogo, a farinha e a faca peixeira, compadre Antonio Vicente!
Já passa das cinco, é tarde para quem vai pra longe e tem que ir devagar… Nas horas de Deus amém!…

Como não reconhecer a fé e a coragem daqueles aventureiros? Eles partiram para uma terra florestal abençoada em que se fazia abundante a água da chuva, o leite do gado, o mel e a garapa da cana de açúcar.

Entretanto, aquela era também uma terra desconhecida, desabitada e doentia, ambiente de doenças tropicais, de mosquitos e animais peçonhentos.

A caminhada do nordestino lembra a do povo de Deus, conforme o Livro Sagrado. Ele buscou a terra onde corria leite e mel. Uma terra que, no entanto, era habitada e teria que ser conquistada, domada, para tornar-se celeiro de Israel.

A região do vale do Mearim, incluindo Pedreiras, foi domada e cultivada principalmente pela gente nordestina, e passou a abastecer os mercados de São Luis, de Teresina e de outras cidades da região, com frutas, cereais, carne e outros produtos.

Muitos foram os que tombaram na batalha. Não dispondo de assistência médica adequada, muitos foram abatidos por leishmaniose, malária, hepatite, tuberculose, hidropisia, infecções e acidentes, os mais diversos, inclusive, afogamento, queda de árvore, incêndio e picada de cobra.

Gloria a Deus pela fé, determinação e garra da gente nordestina!

Bendita seja a Pedreiras, terra abençoada, destinada por Deus ao trabalhador nordestino.
Salve o nordeste e viva o povo brasileiro !…

Em, 22 de maio de 2011.

Pedro Furtado Leite.

 
 


Pedro Furtado Leite Engenheiro Florestal aposentado.